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Crônica - Morangos




Em pouco tempo se tornaram melhores amigos. Adoravam sair, se ver, se divertir, tirarem fotos.

Até que um dia o beijo aconteceu. Ardente, quente, plenamente correspondido. E eles se enrolaram. Rolou o primeiro amasso em público, a primeira viagem, os papos se tornaram diários, mensagens sem fim, conheceram ambas as famílias. No começo ficou estabelecido que seriam amigos, amigos enrolados, que se curtiam e ficavam. Se achavam os moderninhos da turma. A mãe dela perguntava o que rolava. A mãe dele fingia que nada acontecia. O pai dela torcia para que dessem certo. Ela temia que se machucasse mais uma vez. Ele dizia que não temia nada. Mas temia. Temia perdê-la e queria algo mais.  Uma noite em que saíram, depois da sessão do cinema, ao deixá-la em sua casa, confessou para ela que queria avançar um pouco mais aquela relação.

"- Você é muito importante para mim, para ser só uma ficante. Não sou um caminho que você passa até achar um namorado. Se for para não termos futuro, eu quero que a gente não se veja mais por uns meses."

Ela empalideceu. Ele arriscou tudo. Ela não esperava aquela conversa. Ele não sabia de onde veio aquela coragem toda. A conversa acabou. Se despediram. O beijo não foi o mesmo. Ele não poderia mais voltar atrás naquela decisão.

"- A gente se fala amanhã?"

"- Pode ser."

Ela entrou. Ele pensou consigo mesmo:

"- Será que fiz merda?"

Ele foi para casa e não dormiu naquela noite, girando para um lado e para o outro em sua cama, revivendo todas as cenas que passaram juntos. Chegou a hora em que tinha que levantar para ir ao trabalho, levantou, a cabeça doía, tomou um banho quente, fez a barba e olhava para o celular esperando pela primeira mensagem do dia, que sempre chegava por volta daquela hora. A mensagem não veio. Pensou em mandar uma. Achou melhor não. Foi para o trabalho, a manhã demorou uma eternidade para passar. De vez em quando pegava o celular e nada da mensagem dela. 

"- Perdi ela."

Até que a tarde, depois do almoço, veio ela mandou uma mensagem:

"- Oi, sumido! Tudo bem?"

E ele respondeu como se não tivesse acontecido nada na noite anterior. Trocaram um monte de mensagens no restante do dia. Ele sentia falta dela. Ela sentia falta dele.

* * * * * * * * * *

Naquele final de semana se encontraram. Ele ouvia atentamente tudo o que ela falava, mas  ainda o incomodava em não saber sobre o futuro. Ela então vendo sua expressão de interrogação, lhe disse:

"- Vamos deixar rolar. Sem pensar no futuro. Uma hora a gente se acerta. Ah, eu te amo muito, seu bobo."

Ele pensou, sorriu e momentaneamente aceitou. A vida deles era morango, suculento, dava água na boca, vermelhinho de amor. Não é curioso? Todos que os viam juntos, os enxergavam como morangos, imaginando seus desejos e suas doçuras. Mas um morango sem açúcar não é doce. O morango, esse grande brincalhão. A fruta que engana. E foram levando. Ela com seu temor de se machucar mais uma vez. E ele com a sua esperança de que era o primeiro capítulo de uma história eterna. Com sabor de morango.

Crônica - O Contador de Histórias


Alguns são atletas com corpos esculturais. Outros são tão bonitos que deveriam ser artistas de cinema. E há aqueles que são engraçados que contagiam sua proximidade com gargalhadas. Ele impressionava contando histórias. Eventualmente escrevia um conto, narrava uma crônica, esboçava uma poesia, tirava fotografias e preparava apresentações em PowerPoint para seus colegas na empresa em que trabalhava, sempre elogiado por quem o conhecia.

"- Muito bom! Escreve mais!"

"- Apresentação perfeita!"

"- Cara, você é um artista! Parabéns!"

Então a conheceu. Ela que sempre foi atraída por tipos atléticos e modelos fotográficos, agora estava sozinha, depois de um término de relacionamento. Ela foi convencida a sair com ele em um encontro, só os dois, na casa dele, onde conheceria seus dotes culinários e conversariam. Enquanto ele preparava o jantar ela conheceu seus talentos com as fotografias afixadas em um mural, ele começou a apontar algumas e disparou a contar a história delas. 

O jantar estava pronto. Comeram, conversaram, ele elogiou sua beleza, ela ficou sem graça com o elogio. Ajudou a arrumar a louça na cozinha.

"- Adorei o jantar e te conhecer melhor. Mas preciso ir. Amanhã acordo cedo."

"- Tudo bem."

Num gesto um pouco mais ousado, ele pegou em seu queixo com os dedos da mão direita e com o braço esquerdo envolveu sua cintura e a puxou em sua direção. E o beijo aconteceu. Cinco segundos. Ela o empurrou.

"- Olha, foi um erro... Não estou pronta ainda para me envolver."

"- Tudo bem. Te levo para casa."

Enquanto a levava no carro, sua cabeça viajava em mil outras possibilidades de ter encerrado o encontro, mas o sabor dos lábios dela insistia em permanecer em sua boca. Já ela olhava as luzes da cidade pela janela, sem olhar para ele.

"- Chegamos."

"- Obrigada pelo jantar."

"- Não tem porquê agradecer."

"- Tchau. Se cuida."

"- Pode deixar."

Depois daquele dia, só uns dois dias depois o silêncio foi interrompido com uma mensagem de celular dele. Passaram a se conversar com mais frequência pelo telefone, mas ela temia em sair com ele novamente e em seu íntimo ela se convencia que ele estava confundindo as coisas. Ele era diferente dos caras com quem saía. Ela sempre tinha uma desculpa para não mais sair com ele: academia, ajudar na cerimônia de casamento de uma amiga, estudar inglês. E ele, teimoso, sempre tinha esperança: um dia terminaria certo o próximo encontro.

Com o tempo ela perdeu o receio de encontrá-lo ao vivo, mas sempre que podia, marcava em um lugar com muita gente.

"- Podemos marcar de sair de novo."

"- Quem sabe semana que vem. Essa semana estou muito ocupada."

"- Tá certo."

No fundo, ele sabia que ela desejava semideuses, não alguém comum como ele. Mas ele alimentava uma esperança de que poderiam dar certo. Ele passou a desejar que ela despertasse todos os dias com rosas vermelhas enviadas por ele, mas não tinha posses para isso. Pensou em redigir as próprias flores, mas as palavras não rimavam nas suas tentativas de poesias. Um dia, resolveu mudar de estratégia. Como era bom com histórias, resolveu escrever-lhe dois ou três contos por semana, fazendo rir e chorar. Ela os recebia, lia com atenção cada palavra e sabia que era uma forma diferente de ele dizer o que sentia por ela. Depois elogiava esse, não gostava do final daquele. Sempre furtiva e sem dar pistas do que se passava em seu coração. Não estava acostumada a ser inspiração de artistas.

Já se passaram uns vinte contos e ele continua sempre se inspirando nela para escrever. Não se sabe ainda se suas palavras tocaram o coração dela. Mas ao narrar os sentimentos, continuou alimentando a sua esperança e começou a entender o mundo. Mundo este que nunca esteve em sintonia com ele, mas que em sua esperança, ela um dia fizesse parte do seu.

Superman - 75 Anos


Hoje é o aniversário de 75 anos da Action Comics número 1, a revista que apresentou ao mundo Superman, o herói dos heróis, e que começou então a Era dos Super-Heróis, e para comemorar, vou relatar um pouco da minha vida com essa mitologia moderna e com meu super-herói favorito: Superman.

Bom, para começar, vamos voltar no tempo. Quando pequeno a gente cresce em meio a heróis e mitos, e o mito que me acompanhou de minha infância até bem recentemente foi o Superman. Tinha quase 8 anos quando uma chamada na televisão anunciou:

"Finalmente liberado para a televisão, Superman, o Filme. Você acreditará que o homem pode voar. Nesse sábado, em Supercine!"

Lembro que fiquei acordado esperando o filme começar e valeu a pena cada frame daquele filme! Confesso que fiquei deslumbrado ao ver Christopher Reeve encarnar o herói e os efeitos especiais, que até hoje me surpreendem por terem sido feitos em uma época antes dos computadores, eram espetaculares para satisfazer meus maiores sonhos. Comecei a partir de então a colecionar gibis, figurinhas, adesivos, tudo o que lembrasse o herói e o Superman passou a fazer parte da minha mitologia moderna. Nos bons e maus momentos, lá estava o Superman acompanhando a minha vida e eu acompanhando suas histórias.

Meus colegas preferiam o Batman, que eu sempre achei meio gay, ainda mais depois das versões do cinema de Tim Burton, mas como eu cresci vendo aquele seriado do Batman do Adam West, nada me tirava que o Superman era mais fodão, sejam nas versões dos filmes de Reeve, ou do seriado Lois & Clark com Dean Cain, ou ainda nos desenhos o Superman de Ruby Spears e Bruce Tim e mais recentemente em Smallville, com Tom Welling. Nenhum super-herói superava o mito original, o Superman.

E as coincidências com a minha vida? O começo do namoro com Lois Lane, nos quadrinhos, na mesma época da minha primeira namorada, a morte pelas mãos de Doomsday na mesma época da morte de minha avó materna (que se tornou um dos anos mais tristes de minha vida), a versão com cabelos compridos na mesma época que eu deixei os meus, o aparecimento do clone Superboy que usava brincos um mês depois de furar minha orelha e colocar meu primeiro brinco e mais algumas outras, que se eu colocasse aqui, diriam que seria forçação de barra! ;-)

Mas a maior coincidência de minha vida foi na edição de número 870 de Action Comics, de novembro de 2008, edição marcada pela morte de Jonathan Kent, pai adotivo do alter ego de Superman, Clark Kent. Poucos dias depois, no mesmo mês, do mesmo ano, meu pai biológico, que de certa maneira me introduziu ao mito do Superman, se despedia de mim desse plano. :'-(

Mas também houveram outras quase surpresas, tal quando a minha psicóloga suspeitou que eu tinha Complexo de Superman, por ter essa tendência de sempre tentar superar, de fazer o que ninguém mais tem que fazer. Tempos depois ela achou melhor dizer que eu tinha Complexo de Peter Pan por achar que eu não crescia e não tinha medo de quase nada e, também, por achar que eu levava a vida como uma enorme brincadeira de aventura. E a vida não é assim mesmo?

Para finalizar os 75 anos de apresentação do Superman, vejam o novo trailer do filme "O Homem de Aço" que estreará no Brasil em Julho deste ano e que foi divulgado essa semana. Assistam! É simplesmente fantástico!



Bom, vou terminando por aqui. Longa vida ao mito do Superman e que o maior dos super-heróis inspire muitas e muitas outras pessoas. 

Crônica - O ouvinte



"- Deco, você tá me ouvindo?"

Ele acenava que sim com a cabeça, ela ficava enfurecida e continuava:

"- Você nunca me ouve!"

"- Eu ouço sim. Só que não quer dizer que eu concorde sempre com você, Teca..."

"- Doido!"

E eles caiam na risada. A amizade deles era assim. Gostosa. Na vida dele parecia que a gravidade não era obrigatória: tudo parecia mais leve. Já a vida dela tinha que ser controladinha, rotineira, como a vida da maioria das pessoas que aceitam que sejam assim lá na casa dos vinte e poucos anos. Ele era mais velho, mas parecia mais novo, mais moleque. Ela era mais nova, mas vivia como se tivesse espírito de senhora.

“- Teca, hoje a noite vamos sair pra dançar, tá?”

“- Ah, Deco, ando meio cansada. Não estou muito bem hoje, passei o dia fazendo faxina aqui em casa...”

“- Passo as 21 horas, tá bom?”

“- Melhor não, tô quebrada... Deixa para outro dia...”

“- Coloca aquela sapatilha que eu te dei no fim do ano! Hoje vamos dançar muito!”

“- Deco, você tá me ouvindo?”

“- Hahaha!”

“- Você nunca me ouve!”

“- Claro que ouço. 21 horas fica pronta, tá bom? Beijos!”

“- Doido! Tá bom!”

E saíram como todas as outras vezes que ele marcava. No final, ela se divertia mais do que se ficasse em casa. Afinal, o que ela faria? Assistiria televisão? Leria dois capítulos daquele livro que ela começou há um mês? Navegaria nas redes sociais? Devagarinho, ela foi entendendo que a vida não precisava ter aquele peso todo que as obrigações impunham e sentia falta quando Deco não dava sinal de vida. Aquela energia que ele carregava, aquele jeito de não ouvir ela, já fazia parte da sua vida.

"- Teca, cineminha hoje, tá bom? E depois a gente sai para tomar um lanche..."

"- Ai, Deco... Tá, você não vai me ouvir mesmo... Pode ser às 19 horas?"

"- Perfeito!"

"- Que filme a gente vai ver?"

"- O que for mais legal e estiver em cartaz!"

"- Tá... tudo bem!"

Escolheram um filme de comédia romântica, que estava em cartaz há algum tempo e uma amiga tinha recomendado para Teca. O filme deixou aquela saída dos dois com cara de encontro. Teca durante o filme, recostou no ombro de Deco. Alguns minutos depois, Deco, como que por instinto, abraçou Teca, que também o abraçou. No final do filme, com aquele clima de romantismo no ar e ainda com o escurinho do cinema, Deco arriscou um beijo em Teca, que por cinco segundos correspondeu, até ela parar.

"- Deco, eu não posso fazer isso..."

Ele roubou um selinho.

"- Deco... Vai estragar a nossa amizade..."

E Deco deu um selinho um pouco mais demorado.

"- Deco... por favor, pára, vai?

Deco respondeu com um selinho e uma mordida nos lábios de Teca.

"- Você tá me ouvindo?"

Deco sorriu e enquanto pegou no queixo de Teca.

"- Sim, Teca, estou ouvindo, mas não significa que eu precise concordar com você..."

E se beijaram cinematograficamente. Concordando ou não, uma coisa é certa: Deco ouvia muito bem Teca.

Crônica - A menina do outono


Era uma manhã de sol tênue, típica de outono na minha cidade e eu estava indo para o meu trabalho. Tinha acabado de chegar ao centro da cidade e fui até o ponto de ônibus da avenida central. Enquanto prestava atenção nos ônibus que passavam, sinto um toque leve em meu ombro.

"- Moço, bom dia... Pode me dar uma informação?"

Era uma menina de não mais do que 14 anos, linda como aquela manhã de outono. Com certeza em alguns anos teria uma fila de pretendentes. Ela tinha cabelos escuros, seus olhos eram de um castanho claro radiante. Estava com uma mochila nas costas, talvez estivesse indo para a escola. Como sempre fui um sujeito de respeito, sorri e respondi.

"- Bom dia! Claro."

"- Então, como eu chego no Jaguara Mall?"

"- Ah, estou indo pra lá!"

"- Mesmo? Legal!" 

Ela vira para o lado onde sua mãe está sentada.

"- Mãe, ele vai pra lá!"

A mãe se levanta, dirige-se pra mim:

"- É que estou um pouco atrasada. Você vai lá para perto?"

"- Sim! Trabalho em frente."

"- Você mostra pra minha filha então aonde ela tem que descer?"

"- Sem problemas."

Em alguns minutos o ônibus encosta, eu e a menina nos encaminhamos para entrar no ônibus. A mãe dela fica no ponto e depois de se despedir da filha, fala pra mim:

"- É que ela nunca andou de ônibus sozinha..."

A menina fica inconformada:

"- Mãe! Pára! Já sou grande!"

Eu respondo à mãe atenciosa:

"- Tudo bem. Eu mostro certinho para ela."

"- Obrigada! E filha, toma cuidado ao atravessar a rua!"

"- Tá bom, mãe!"

 Ela fica próxima de mim, nos olhamos e sorrimos um para o outro. Não trocamos muitas palavras. Ao chegar próximo do ponto de ônibus, eu aviso para ela. 

"- É o próximo ponto."

"- Tá bom!"

Descemos no ponto de ônibus juntos. Ela me dá um beijo no rosto.

"- Obrigado, moço. Tenha um ótimo dia."

"- Obrigado. Você também."

Não perguntei aonde ela ia, nem a vi mais por muito tempo. Por toda a primeira década do século 21.

* * * * * * * * * *
Tinha conhecido uma garota bacana e começamos a sair. Era a terceira vez que nos encontrávamos. O verão tinha acabado, as noites começavam a esfriar. Fui buscá-la em sua casa. Como tínhamos combinado, dei um toque em seu celular quando estivesse perto de sua casa. Faltava menos de dois quarteirões quando dei um toque.

Ao chegar em frente a casa dela, ela imediatamente sai do portão e entra no meu carro. Sua mãe nos chama de dentro da casa:

"- Espera um pouco filha! Deixa eu conhecer ele!"

Ela sussurra pra mim:

"- Ah... Minha mãe me trata como se eu tivesse 14 anos ainda... Não liga não..."

"- Sem problemas."

A mãe sai:

"- Oi! Tudo bem? Prazer, Sueli! A gente já não se conhece?"

Imediatamente reconheço a mãe que estava no ponto de ônibus naquela manhã de outono, sorrio, olho para minha garota e todos os seus traços da menina, agora mulher, me retornam a memória, volto a olhar para a mãe dela e respondo.

"- Oi Sueli! Talvez sim... O mundo é pequeno, né? E meu rosto é bem comum..."

"- Pode ser... Bom, boa diversão para vocês dois... Vão voltar tarde?"

Minha garota não aguenta e responde:

"- Mãe! Pára! Já sou grande!"

"- Ah, filha, só perguntei..."

"- Pode ir dormir... Já tenho a chave..."

"- Tá bom... Cuidado na rua, tá bom?"

"- Ok, Sueli."

"- Tá bom, mãe!"

E partimos para o nosso encontro. Será que minha garota sabia o tempo todo? Não soube por mais algum tempo. Não importava. Engraçado, esse destino. Só sei que meus outonos nunca mais foram os mesmos. Nunca mais.

Crônica - O Príncipe e a Rosa


Numa quinta-feira a noite, ele tropeçou perto dela, Thália, uma colega de classe que chorava:

"- O que aconteceu, Thália?"

"- Nada não, Davi..."

"- Certeza?"

"- Certeza. Não liga não... Eu vou ficar bem..."

"- Detesto ver uma moça bonita, como você, chorando... Então faz assim, eu te ligo domingo, você estando ou não bem, a gente vai sair e rir muito. Combinado?"

"- Ah, não sei se quero sair..."

"- Até lá você você vai se decidir. Te ligo, tá bom?"

"- Tá..."

Passaram a sexta, o sábado e o domingo chegou. Thália havia chorado muito esses dias. Heitor, seu ex-namorado, havia rompido o relacionamento com ela e não se sentia bem consigo mesma. O telefone de Thália que estava no vibra-call começa a chamar e ela vê que é Davi. Thália pensa um, dois, três, quatro toques e no quinto ela atende.

"- Oi, Davi! Tudo bem? Pode falar..."

"- Oi, Thália! Eu tô bem... E você?"

"- Estou bem também." ela mentiu.

"- Então, Thália! Vai rolar um barzinho novo na cidade e a inauguração é hoje. Consegui dois convites VIP's para nós dois. Passo aí às 19h00, pode ser?"

"- Ah, Davi... Melhor não... Não sei se serei uma boa companhia..."

"- Thália, eu serei a sua. Não se preocupe comigo!"

"- Tem certeza? Não vou te atrapalhar?"

"- Você nunca me atrapalharia."

Naquela noite, Thália e Davi saíram pela primeira vez. Dançaram, riram, cantaram, se divertiram. Thália adorou a companhia de Davi e nem viu a hora passar. Ao deixá-la em casa, Davi depois de se despedir já lançou outro convite:

"- Quarta a noite. Vamos ver o novo filme do Homem-Aranha, tá bom?"

"- Ah, Davi... Vamos ver... Hoje fiquei melhor, mas não sei quarta... e a gente tem aula!"

"- A gente recupera o conteúdo depois... E outra, é bom quebrar um pouco a rotina!"

"- Ah, vamos ver... Se eu estiver bem..."

"- Relaxa, linda. Passo aqui às 18h, tá bom?"

"- Tá bom, combinado. Dirige com cuidado, tá?"

"- Pode deixar, linda!"

Saíram na próxima quarta para o cinema e Thália adorou o filme. Resolveram criar uma rotina de saídas e pelo menos uma vez por semana lá estavam Thália e Davi, que formaram uma grande amizade que aos poucos foi ajudando a diminuir a tristeza causada pela ausência de Heitor. Davi sempre lhe fazia sorrir, contava histórias engraçadas, apresentava filmes que ela desconhecia e falava sobre todos os assuntos que pudessem imaginar. Seus assuntos eram inesgotáveis.

O tempo passou e em um final de semana que não se encontraram, Thália foi passar o final de semana na casa de uns parentes. Lá conheceu Leandro, rapaz atlético, presença imponente e que logo atraiu a atenção de Thália. Em um momento de descuido, quando ninguém via, Leandro roubou um beijo de Thália que encheu sua barriga de fagulhas. Passaram a noite juntos e prometeram se ver. Ao retornar para sua casa, fez questão de encontrar Davi para lhe contar as novidades.

"- Davi, acho que superei o Heitor. Conheci um cara... Leandro... Ficamos no final de semana."

E Thália contou tudo o que sentiu para Davi, sensações, a redescoberta por ser uma mulher desejada. Davi prestou atenção em todos os detalhes, fez algumas perguntas, até que Thália lhe perguntou:

"- Davi... O que você acha? Devo continuar?"

"- Thália, se você está feliz, por que não arriscar?"

Ela esperava alguma censura, algum conselho contrário, uma declaração de amor talvez, menos aquilo.

"- Você acha?"

"- Sim. O que você tem a perder? Se for bom, você vai ser feliz. Se não for, valeu a experiência."

"- Ai, Davi... Obrigada."

Se abraçaram e conversaram sobre muitos outros assuntos. Afinidade eles tinham de sobra e assunto também.

* * * * * * * * * *
Em duas semanas, Thália começou a namorar Leandro e em outras duas semanas começou a rarear as conversas com Davi. Em pouco tempo, Davi era a memória de um bom amigo que a ajudou em um dos momentos mais tristes de sua vida. Eventualmente lembrava de Davi, mandava um SMS com poucas palavras para ele que sempre eram respondidas com algum emoticon de alegria. 

O namoro com Leandro vivia de altos e baixos. Thália sabia que não daria certo, mas insistia até um provável fim, que inevitavelmente chegou. Leandro, como Heitor, agora era seu ex-namorado. E ela estava sem chão. Ela tinha se afastado de todos os amigos por causa do namoro. Com os olhos cheio de lágrimas e o coração apertado, lembrou de Davi, pegou seu celular e ligou pra ele.

"- Davi... O Leandro terminou comigo..."

"- Caramba! Linda, aonde você está? Vou aí te ver..."

"- Tô em casa... Não vou te atrapalhar?"

"- Você nunca me atrapalha."

Em vinte minutos Davi e Thália se encontraram. Ela chorou, ele a consolou. Thália se lembrou de todos os momentos que viveu ao lado de Leandro e se desculpou por se ausentar de Davi.

"- Faz parte, Thália."

Davi propôs que não ficassem em casa e logo voltou a sair com Thália, a dar motivos de alegria para ela, mesmo que ela se encontrasse naquele momento de sua vida com o coração despedaçado. Aos poucos ela foi se curando daquela dor, seu universo voltou a ter mais vida e Davi passou a ser uma presença imprescindível em sua vida, pois ela sabia que ele era uma pessoa rara. Certa noite, enquanto assistiam deitados no gramado da faculdade em silêncio uma lua cheia prateada em um céu pontilhado de estrelas, Thália virou-se para Davi e perguntou porque ele era assim com ela, sempre disposto a buscar o seu melhor. Davi pensou e finalmente começou a responder com uma pergunta.

"- Já leu O Pequeno Príncipe, Thália?"

"- Não, mas acho que eu conheço a história."

"- Então, como na história, quando nossas vidas se cruzaram, eu coloquei na cabeça que queria ver você feliz e, como o Pequeno Príncipe fez com sua Rosa, eu acabei cuidando para que você não sofresse mais. Quando começou a namorar o Leandro e se afastou de mim, foi como na história, deixei você com algumas lagartas para que virassem talvez borboletas na sua vida. Mas agora que as borboletas se foram, não sei se o Leandro era uma, você me chamou e eu tive que voltar para deixá-la novamente feliz."

"- E eu sou sua Rosa então?"

"- Então... Como no livro, Thália, o Pequeno Príncipe descobre que sua rosa não era única. Era igual a outras cem mil ou mais. Mas ele fez dela uma amiga e então ela se tornou única. E ele sabia que tinha se tornado eternamente responsável por ela."

"- Eternamente responsável por aquilo que cativa..."

"- E por mais que nossos caminhos se encontrem e se desencontrem, irei proteger e cuidar de você sempre que precisar. Porque você é a única em minha vida."

"- Ninguém nunca me disse nada assim antes..."

"- Eu sei..."

Eles se entreolharam, o silêncio se instalou e um beijo aconteceu. Daquela grande amizade surgia agora um grande amor. Entre o Príncipe e a Rosa.

Crônica - Dúvidas e Dívidas



“- Então a gente está terminando?”

Com uma afirmativa de Gustavo, Jaqueline viu que seu namoro meteórico tinha terminado. Começou intenso, quando nas férias na montanha ela o conheceu. Depois de ficarem juntos, em duas semanas oficializaram o namoro. E agora, seis meses depois, tudo tinha se encerrado. Muitas coisas boas aconteceram, muitas coisas ela descobriu como casal, depois de uma relação morna do namoro anterior. Agora ela estava só.

Em pouco tempo, os amigos passaram a lhe acolher, chamaram-na para sair e se divertir, mas seu coração estava ainda aos cacos e seu mundo com muito menos cor. Jaqueline sentia falta de Gustavo, dos seus carinhos, do seu sorriso, mesmo sabendo que a relação não tinha como dar certo. Coisas do coração que a razão não consegue superar. As lágrimas caíam quando ao anoitecer em seu quarto vinham as dúvidas:

“- E se eu tivesse contado tudo?”

“- Deveria ter terminado a amizade com Ariel.”

“- Por que eu não fiz o que ele me mandou fazer?”

Essas e outras dúvidas que lhe faziam companhia antes do sono, acabavam por passar uma sensação de que Jaqueline estava em dívida com Gustavo, como se o sucesso do namoro deles não deu certo por culpa exclusiva dela. Jaqueline adormecia, tinha sonhos nem sempre tão bons e a tristeza acompanhava-a, dia após dia. As dúvidas alimentavam as dívidas e estas alimentavam novas dúvidas.

Com o tempo as lágrimas escassearam, retomou a amizade com Ariel e um sorriso passou a ser esboçado em seus lábios. Ariel era aquele tipo de amigo superfranco, que se gostasse de alguém ele deixava bem claro, dava conselhos cirurgicamente diretos, além de ser super engraçado, e passou a contar para Jaqueline coisas da sua vida, das diversões, do que chegou a fazer enquanto ela esteve afastada dele por causa do namoro. Ariel levava a vida com leveza, nunca deixava Jaqueline de escanteio, sempre colocando-a como uma parte importante de sua vida.

“- Jaque, tem um churrasco da galera da faculdade no próximo domingo e você vai comigo, beleza?”

“- Ariel, não sei se eu seria uma boa companhia.”

“- Jaque, você sempre é!”

“- Não vou te atrapalhar?”

“- Nunca, Jaque! Você nunca me atrapalha!”

E Jaqueline embarcava nas travessuras de Ariel e se divertia. Churrascos, baladas, barezinhos, aulas de dança. Ariel preenchia parte do vazio que Gustavo deixou na vida de Jaqueline, inclusive colocando novas cores. Nada de rotina, a vida era uma eterna aventura para Ariel.

Um dia, o inevitável aconteceu, Jaqueline e Ariel se beijaram. O beijo encaixou como nunca antes Jaqueline tivera experimentado. Mas um breve momento depois, Jaqueline se afastou.

“- A gente não pode fazer isso, Ariel.”

“- E por que não?”

“- Porque somos amigos.”

“- Somos mais do que amigos. Somos duas pessoas que gostam muito da companhia um do outro.”

“- Mas eu não posso continuar com isso, Ariel. O Gustavo ainda vive dentro de mim...”

“- Eu sei, Jaque. Para você essa história ainda não encerrou. Mas não vou apressá-la. Um dia você vai deixar o passado aonde ele deve continuar para sempre: o passado.”

“- Mas não é fácil, Ariel. Tente me entender. Eu ainda acho que posso me acertar com o Gustavo. Eu errei muito no meu namoro.”

“- Jaque, você não deve nada para o Gustavo. Se você sabe que era areia demais para o caminhãozinho dele. E sabe o que eu acho? Você está com o orgulho ferido. Sabia que não ia dar certo, mas não foi você quem encerrou a história. Foi ele. Aí fica se martirizando.”

“- Pode ser...”

“- Mas você tem razão. A gente não devia ter feito isso. Não posso seguir adiante e te oferecer  todo o calor do Sol se você ainda tem uma brasinha do passado dentro de você.”

“- Ariel, eu gosto muito de você. Você sabe disso.”

“- Eu também. Mas não sei se eu for só seu amigo me basta mais...”

“- Ariel, você é importante na minha vida. Não fala assim.”

“- Bom, você tem que resolver as pendências com o seu passado. Mas acho que não posso mais continuar te encontrando.”

“- Por quê?”

“- Porque você tem que resolver isso sozinha.”

“- Ariel...”

“- E quando estiver acertado as contas com seu passado, a gente conversa. Cansei de ouvir você falar Gustavo isso, Gustavo aquilo. Cansei. Desculpa o desabafo.”

“- Tá bom. Se você vê assim.”

Se despediram. Para Jaqueline foi como um novo término de relacionamento. Para Ariel foi como um novo recomeço. Jaqueline voltou a encerrar as noites pensando em Gustavo. Ariel voltou a viver longe das sombras de alguém que ele tinha certeza de que nunca seria 10% dele. Jaqueline perdeu as cores e o vazio aumentou. Ariel partiu em busca de sua felicidade.

* * * * * * * * * *

Um mês se passou. Jaqueline ainda pensava em Gustavo, que agora já tinha uma nova namorada. E as dúvidas só aumentavam:

“- Como ele já pode ter começado a namorar outra?”

“- Eu não era o amor da vida dele?”

“- E toda aquela paixão que a gente sentia? Foi parar aonde?”

Jaqueline resolveu ligar para Ariel, que atendeu depois de seis toques. Se cumprimentaram meio que sem graça, mas iniciaram uma conversa. Lá pelo terceiro minuto, Ariel puxou assunto:

“- E você, Jaque? Já se resolveu?”

“- Ariel... Ainda não sei... E você? Como anda o coração?”

“- Em vias de me apaixonar. Você vai gostar dela. É super gente fina! E linda!”

“- Hmmm... Legal.”

“- Sim. Bom, vou lá pra casa dela. E que bom que a gente não foi adiante, né? Poderia não ter encontrado uma das grandes chances de felicidade de minha vida.”

“- Se você diz...”

“- Beijos, Jaque. Liga outras vezes. Vou lá ser feliz. Até mais.”

E Jaqueline segurou o celular, deitou-se em sua cama abraçada com ele e falou baixinho consigo mesma:

“- Eu também queria ir lá e ser feliz...”

E adormeceu, pensando em suas dúvidas e em sua dívidas.

Crônica - Sentido


No parquinho em frente à escola, Dalton encheu o peito de coragem, atravessou correndo até encontrar Tainá brincando no balanço e ela, que já tinha notado a aproximação de seu amigo, foi parando até ele chegar:

"- Tainá, quer ser a minha namorada?"

Com sete anos de idade, no comecinho da segunda série, Dalton sabia de tudo e a sua vida tinha muito sentido. Já fazia um ano que estudavam juntos e Tainá, a menina com olhos cor de mel, parecia ser a namoradinha ideal: desenhava superbem, era inteligente, tinha letra bonita e no ano anterior deu dois abraços apertados nele. Tainá era a melhor amiga de Dalton, mas como os amiguinhos ficavam zoando com ele, se ela se tornasse namorada, na lógica dele, ele sairia bem na fotografia, o primeiro da turma a ter uma namorada.

"- Sério? Hmmm... Posso pensar?"

"- Pode!"

Os anos passaram e aquela cumplicidade de garotos foi rareando enquanto viravam adolescentes e depois adultos. Se distanciaram e o contato entre eles terminou no final do Ensino Médio. Tainá foi fazer faculdade e Dalton, como tinha que trabalhar, resolveu fazer cursos livres. Após alguns anos, Tainá depois de terminar a faculdade foi trabalhar na capital e Dalton, cansado da falta de oportunidades, foi se aventurar pelo mundo. Na cidade grande, Tainá encontrou primeiro um bom emprego em um banco privado e, alguns anos depois, um amor que em menos de um ano a levou ao matrimônio. Dalton enquanto isso viajava de país em país, aprendendo idiomas diferentes com a mesma facilidade com que fazia amigos. A distância entre eles só aumentava e não tinham mais notícias um do outro.

Em outros cinco anos o amor no casamento de Tainá tinha acabado e o divórcio foi inevitável. Dalton colecionava histórias e fotografias e resolveu que era hora de voltar ao país. Tainá resolveu fazer curso de fotografia e após dois meses de aula, sua professora disse que haveria uma exposição no centro da cidade. Ao chegar na exposição, qual foi a surpresa de Tainá ao encontrar Dalton, após mais de dez anos.

"- Oi, Dalton! Ainda lembra de mim?"

Dalton, feliz com a surpresa e num gesto de empolgação a abraçou e, como era mais alto, tirou-a do chão de tanta alegria:

"- Tainá, quanto tempo! Como você tá, menina?"

"- Bem! E você?"

"- Estou ótimo! Aceita tomar um cafézinho comigo para colocarmos a conversa em dia?"

"- Se não for te atrapalhar..."

"- Você nunca me atrapalha, gata! Nunca!"

No café, Dalton contava sobre sua vida em três continentes diferentes e Tainá prestava atenção em tudo. Depois Tainá contou sobre a vida na cidade grande e o casamento. O café depois puxou um choppinho, que mais a noite virou um cinema e no escurindo do filme, Dalton lembrou daqueles olhos cor de mel que o hipnotizavam quando garoto e roubou um selinho de Tainá, que não era beijada desde o ano anterior. A vida começou a fazer sentido de novo para Dalton, como um dia fez há vinte anos atrás.

Se encontraram uma segunda, terceira, quarta vez. O selinho virou, ao longo dos encontros, um beijo de cinema. Quando foi levar Tainá para casa, Dalton viu que em frente ao condomínio havia uma praça e um parquinho. Convidou Tainá para ver um pouco da lua cheia que iluminava o céu naquela noite. Ela se sentou no balanço e a memória do dia em que ele a pediu em namoro veio à tona. Ele a olhou e tentou dizer algo:

"- Tainá, eu que... que... que..."

Tainá vendo que Dalton gaguejava, o interrompeu com um gesto leve pedindo silêncio:

"- Shiu!"

Ele emudeceu e Tainá continuou:

"- Agora é minha vez: Dalton, quer ser meu namorado?"

Crônica - Bolo de Cereja


"- Pois não?"

As atendentes daquela padaria na avenida principal, que adoravam cuidar da vida dos outros, perceberam que aquele rapaz que acabara de entrar e se sentar no banco rente ao balcão, pedia sempre para a mesma moça, uma descendente de italianos alta e bonita. Ela estava sem namorado há cerca de três meses e não queria se envolver com ninguém até aquele momento. Mas suas colegas não perdiam tempo e ficavam de sorrisos pelos cantos enquanto ela atendia o rapaz.

"- Eu queria um pedaço de bolo de cereja!"

Ela cortava um pedaço generoso, colocava em um prato, anotava o código do seu pedido em uma papeleta que ela punha embaixo do prato. 

"- Obrigado."

"- De nada, moço!"

Ela ficava rubra como as cerejas do bolo ao ouvir a voz do rapaz e ela retribuía alimentando o rapaz tímido com sorrisos e gentilezas. Ele sempre sentava próximo de onde ela estava e a fitava de relance com olhos carinhosos. No outro dia, ele entrou na padaria, as atendentes se entreolharam e viram que ele procurava sua atendente e uma mais enxerida adentrou pela porta que ficava no fundo do balcão e foi chamar a colega:

"- Thaís, ele chegou!"

Ela apertou o passo e ao cruzar pela porta tentou disfarçar que aguardava aquele momento. Ele a viu, sorriu e se sentou.

"- Pois não? Já foi atendido?"

"- Ainda não. Bom, eu queria um pedaço de bolo de cereja!"

E ela o serviu como nos outros dias, com um sorriso no rosto. Certo dia, acabaram-se as cerejas e o confeiteiro não fez o bolo. Como ela entrava só no turno da tarde, ficou meio desconcertada em seu íntimo e tinha receio do que as outras atendentes ficassem zombando com ela por dias a fio. O rapaz chegou. Ela amedrontou. Ele a encontrou com os olhos, foi em sua direção no balcão e se sentou:

"- Pois não?"

"- Oi, acho que você já sabe, né? Queria um pedaço de bolo de cereja!"

"- Vou ficar te devendo. Não tenho hoje. Quer fazer algum outro pedido?"

"- Que pena... Não, obrigado. Então vou comprar algumas coisinhas pra casa. Com licença."

Ele se levantou e foi na área em que se encontravam as caixinhas de leites e os biscoitos. Depois que escolheu o que levaria foi em direção ao caixa. Ela viu que não o teria naquela tarde por preciosos minutos, tomou uma coragem que ela nunca soube de onde tirara, foi em sua direção e o interceptou:

"- Moço, desculpa por hoje. Leva essa trufa. Por conta da casa."

Ele pegou o bombom, agradeceu com os olhos e percebeu que junto com a trufa veio uma papeleta. Ele estranhou o "por conta da casa", mas deu de ombros e foi ao caixa. Ao chegar para pagar, ele notou que a papeleta tinha um nome e um número de celular. Ele olhou por cima dos ombros e ela fez um sinal para ele ligar para ela.

* * * * * * * * * *
Marcaram um encontro, descobriram o nome um do outro e que tinham uma série de coisas em comum. Um dia ele confessou que não gostava de bolo de cerejas, mas que quando a viu, ficou tão deslumbrado com a beleza de Thaís, que foi a coisa mais rápida que pensou e saiu de sua boca. Hoje, faz dez anos que estão juntos. E sempre riem quando encontram algo com sabor de cereja.

Crônica - Os bombons


"- Nossa! Ganhei o dia! Quem foi que lembrou de mim e me deixou um bombom?"

Perguntou alto Thabata para todo o pessoal da agência de publicidade em que trabalhava. Como não obtivera resposta, abriu um sorriso, guardou o bombom e mais tarde deliciou-se vagarosamente com o pequeno doce. Virou rotina. Thabata chegava pela manhã e lá estava sobre a escrivaninha um bombom, sem remetente.

"- Quem foi? Quem foi? Acho que tenho um admirador ou alguém que gosta muito de mim!"

Procurava entre os olhares do escritório, alguém que se denunciasse. Ninguém sabia de nada, ninguém via quem deixava todas as manhãs na mesa de Thabata o pequeno presente. Aliás, alguém vê essas coisas? Dia a após dia os bombons teimavam em aparecer e ela começou a se incomodar com o mistério. Um dia chegou e encontrou um bombom de cereja, pegou em suas mãos, olhou para todos os lados, ninguém se denunciou, colocou a bolsa em cima da cadeira e falou para toda a agência ouvir:

"- Gente, eu tenho namorado. E logo vou ficar noiva. Não posso ficar aceitando essas cantadas. Achei que era brincadeira, mas está me incomodando. Quem é que está brincando comigo desse jeito?"

Ninguém falou nada a respeito. Uns sorriam, outras falaram que se ela não quisesse o bombom que dessem para elas. Ela guardou o bombom na gaveta e mais tarde, depois de um estresse danado com um projeto, agradeceu ao admirador secreto pelo bombom que lhe presenteara mais cedo. 

Com o passar das semanas, os bombons que Thabata ganhava, começaram a fazer parte daquelas certezas que nos acontecem todos os dias, faça sol ou faça chuva. Era ela chegar e lá estava seu pequeno mimo que adocicava seus dias. Um dia, ela parou de receber. Não veio nenhum bombom a semana toda e ela entristeceu. A tristeza não era pela falta de chocolate, mas achava que o admirador não a desejasse mais. Comentou com um e com outro o ocorrido.

"- Mas você não pediu esses dias atrás para parar?"

"- É... Pedi..."

"- Então?"

"- Mas não sei se queria ser atendida..."

Então, numa sexta-feira a tarde, Dado, um rapaz alto, forte, supergentil mas extremamente tímido que trabalhava com design, atravessou toda a agência, parou em frente a escrivaninha de Thabata e lá deixou uma caixa enorme de bombons. Ele olhou nos olhos de Thábata, sorriu e se retirou, sem dizer nenhuma palavra. Todos na agência ficaram encantados com aquela cena.

Deu certo? Bem, meu padrinho ainda traz chocolate para a minha madrinha quase todos os dias e ela reclama que ele fica sabotando seu regime. Briguinhas bobas de casal. 
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