Crônica - Cosme e Damião


Essa meu pai me contou uma vez.

Quando pequeno, meu pai dizia que não via a hora de chegar o dia de São Cosme e Damião. Ele não sabia o dia de cor, mas lembrava mais ou menos que era perto de quando chovia. Naquela época, a miséria castigava as crianças lá no Nordeste do Brasil e, para elas, era uma alegria só quando chegava o dia dos santos irmãos chegava, pois era a oportunidade para comer doces.

Certa noite, na véspera do dia dos santos, sua irmã antes de dormir comentou:

"- Luizinho, é amanhã o Dia de São Cosme e Damião!"

"- Sério? Vamos comer muitos doces!"

"- Vamos sim!"

"- Legal!"

Meu pai mal dormiu naquela noite. Ele tinha sete anos recém completados e algumas coisas ele sabia: época de Natal era quando se pedia Boas Festas para seus tios e padrinho. Casamentos e velórios era oportunidade para comer sanduíches. E dia de São Cosme e São Damião era quando corria atrás dos carros de bois e caminhões para ganhar doces. Que alegria! E assim foi. No dia seguinte, meu pai correu atrás de dois carros de bois e três caminhões para comer doces.

"- Feliz Dia de São Cosme e Damião!" e os devotos arremessavam doces para as crianças. 

Para quem não entende direito o que era isso, seria o equivalente brasileiro do Halloween americano. Nos EUA, as crianças adoram o Halloween para ganhar e comer doces. Como a festa de São Cosme e Damião no Brasil. Só que aqui não precisava se fantasiar. Era diferente.

Um dia, cerca de dois meses depois, meu pai viu uma movimentação estranha dos adultos. Seu padrinho apareceu de repente na casa de meu pai.

"- Anna! Anna! Cadê o Luizinho?"

"- Pra quê, homem de Deus?"

"- Frei Damião chegou na cidade! Vou levar o Luizinho para que o frei abençoe ele!"

"- Claro! Ele tá lá no fundo brincando."

Meu pai conta que seu padrinho apareceu e pegou ele com um braço só, o colocou no colo e partiu na correria com minha avó Anna atrás deles. Depois de correr umas cinco quadras, chegaram ao centro da aldeia que moravam e uma multidão cercava o famoso frei. Meu pai não entendia nada.

"- Quem é ele, padim?"

"- É o Frei Damião, Luizinho. O homem é um santo!"

Na cabeça e na lógica de uma criança, meu pai juntou dois e dois e concluiu que era o santo dos doces. E os olhos brilharam naquele momento.

"- Legal, padim!"

Com muito custo, conseguiram depois de um tempo se aproximarem do frei Damião. O padrinho de meu pai se curvou para beijar a mão do frei, coisa que os antigos faziam em sinal de respeito. Frei Damião tocou a cabeça de meu pai, que estava no colo de seu padrinho e perguntou:

"- Qual seu nome?"

"- Luiz!"

"- Tudo bem, Luiz? Vi que me olhava como se quisesse falar comigo. Agora pode falar. O que que é?

"- Eu queria mais doce de leite!"

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