Dez anos de (muitas) saudades


- Andisso!
- Senhora!
- Venha cá!
- Tô indo vó!
- Já te contei a história de quando eu, Olímpio, Moça, meu pai Manuel e vó Dada vimos um avião pela primeira vez?
- Não, vó. Não contou não.

Já tinha contado sim. Mas ali naquele momento, com mais de oitenta anos, eu gostava de ficar ouvindo suas histórias. Mesmo as repetidas!

- Era 1923. Ou foi 24? E hein. Ando ficando meio môca, fio. Mas então, a gente estava indo pra igreja de Santa Quitéria...

Adorava ouvir as histórias de minha avó Anna Maria. Enquanto ela morou com a gente, ouvi um monte de histórias. Um delas foi essa, que comecei a contar, de quando viu um avião pela primeira vez. Outra, que ouvi muito, foi quando desceu de braços dados com o Sivuca (um dos maiores instrumentistas que o Brasil já teve) na rádio de Garanhuns. Ou quando ela improvisava um bêbado em uma marchinha de carnaval.

- Bença, vó! - Deus te abençoe, fio! - Vó, como é mesmo aquela marchinha de carnaval do bêbado?

Ela parava o que estava fazendo, se levantava e imitando um bêbado começava a cantar:
- “Eu não vou,/vão me levando...”
E eu ria. Minha avó foi uma lutadora, sabe? Com 50 anos, final do governo JK, virou migrante, e veio de Garanhuns com os filhos mais novos para São Paulo. Era tempos de pleno emprego.
- Andisso, era só mato ali no Itaim. - É mesmo, vó?
- Era um frio e uma garoa sem fim...
Com mais de 70 anos, eu bem pequeno, ela teve muitas dores abdominais e descobriu um problema grave intestinal. Eu com uns 6 anos de idade acompanhava ela pra cima e pra baixo na Unicamp, no Hospital das Clínicas. Lembro do dia em que estava eu, meu pai Luizão e minha avó, e depois de uns exames veio o médico veio com um prognóstico:

- Vó, é o seguinte: a senhora pode viver mais seis meses com dor, ou opera, e pode viver mais cinco anos e ver seu neto crescer um pouco mais. - O senhor garante que eu duro mais cinco anos? - Garanto. - Pode operar.

Minha avó fez então cirurgia de colostomia. Retirou cerca de cinco metros de intestino. No pós-operatório, enquanto a gente visitava-a, o médico chegou e nos disse:
- A cirurgia foi um sucesso, vó. Mas agora, nada de farinha, feijão com casca...
O médico fez um monte de restrições. Pergunta se ela seguiu as recomendações? Quase nada! Pouco mais de vinte anos depois da cirurgia, já na casa dos 90 anos, na mesma Unicamp, a minha avó foi na minha formatura.

- Vou ter um neto dotôzinho.
- Quem sabe, vó! - E pensar que o médico me deu só mais cinco anos. Lembra disso, Andisso? - Lembro sim, vó. - Olha eu aqui!

Rimos muito. No dia seguinte foi a festa de formatura e dancei o meu último forrózinho com ela. Algum tempo depois ela foi morar com minha tia Lia.
- Ah, fio. Tô no final da minha vida e quero ficar com uma das minhas filhas.
Mais adiante, mudou para São Paulo e foi morar com minha tia Severina.
- A gente se parece muito.
Sempre que dava, eu ia visitá-la em São Paulo para ouvir mais histórias. Perto do Natal de 2006, no dia 23 de dezembro, com quase 97 anos, minha avó teve a sua Páscoa, e passou para um outro plano. Foi um Natal triste aquele ano.
Hoje, dez anos depois, chegou meu filho Guilherme, que também tem o seu sobrenome, Santos. De certa forma, enquanto escrevo essa crônica olhando para ele, fico pensando se vou lembrar de tudo que aprendi, com aquela baixinha, de sapatilha 34, pernambucana arretada, mãe, vó, bisa e tatara que sempre que falo, me enche de orgulho: minha saudosa avó Anna Maria dos Santos.
Te amo, vó.

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