Crônica - O Chorão Olímpico


Ele não era tão esportista, mas adorava as Olimpíadas. Ao assistir as competições, ele aprendia mais sobre os países do que as aulas maçantes de Geografia do seu tempo de escola. Sempre assistia na televisão a cerimônica de abertura dos Jogos, a entrada da tocha olímpica, o desfile com as delegações. Era uma forma de ser completamente globalizado.

"- Que lindo!"

E caía no choro. Ele adorava tanto as Olimpíadas que descobriu em reportagens que foi um brasileiro que criou a volta olímpica! E quando leu a história chorou. Leu tantas vezes a história e chorou tanto, que contava-a para os seus amigos, enquanto assistia a entrega das medalhas de qualquer esporte olímpico.

"- Em 1952, em Helsinque, na Finlândia, Adhemar Ferreira da Silva, enquanto treinava para o salto triplo, aprendeu aqui no Brasil a dizer "terve, terve", algo como "salve, salve" e cumprimentou as pessoas no aeroporto da Finlândia assim que chegou. E ainda sabia cantar uma canção popular da Finlândia! Quem não gostava do cara? Essa simpatia toda o motivou, após o recorde no salto triplo a dar uma volta no estádio para a comemoração! Estava criada a volta olímpica!"

E caía no choro no final da história. Depois de alguns dias, os amigos começaram a caçoar dele, pela positividade em torcer para o Brasil e pelo pequeno número de medalhas nos primeiros dias. 

"- Calma! Calma! Vem mais! É só o começo! E o importante é competir!"

Então ele explicava como vieram as primeiras medalhas olímpicas para o Brasil, para aqueles que não eram otimistas como ele.

"- As primeiras medalhas do Brasil, sabe como vieram, por acaso? Os atletas brasileiros foram de navio, em 1920, para a Bélgica. Só que não ia dar tempo para chegar, então  eles desembarcaram em Portugal e foram de trem. Não trens modernos como os de hoje, mas os trem do tempo da Primeira Guerra Mundial. E embarcaram em um vagão aberto. E choveu muito. Preciso dizer que ficaram ensopados? E o pior? Roubaram o equipamento de tiro durante esta viagem. Só competiram porque os norte-americanos cederam as armas e munições para os brasileiros competirem. E sabem qual foi o resultado? Uma medalha de ouro no tiro rápido, uma medalha de prata na pistola livre e uma medalha de bronze na pistola livre por equipes."

E caía no choro. E se alguém não se convencia do seu choro sincero, ele se empolgava e contava mais.

"- E o caso do Vanderlei, nosso maratonista? Ele liderava a maratona, a última prova da Olimpíadas de Atenas, em 2004, até que um padre maluco agarrou ele depois de o mesmo ter corrido mais de trinta quilômetros. Trinta quilômetros! Era para ele ter ganhado a medalha de ouro. Mas quando o Vanderlei entrou no estádio mandando beijos, fazendo corações com os braços e ganhou a medalha de bronze, eu pê da vida, e ele todo feliz de ganhar uma medalha, vi ali o que era espírito olímpico! E sabe o que veio depois? Depois ainda ganhou a medalha Pierre de Coubertin, homenagem ao criador dos Jogos Olímpicos modernos, e só quatro atletas no mundo já receberam essa que é destinada só a quem demonstra elevado espirito olímpico e esportividade. É uma medalha que independe do desempenho, seu merecimento é ético."

E caía no choro. 

"- Você viu? O Brasil ganhou mais uma medalha de bronze!"

E caía no choro. É, ele sempre foi um chorão. Mas este ano está sendo diferente, pois ele está em boa companhia. Tem mais gente para chorar junto dele.


P.S.: Relembre o que aconteceu com Vanderlei no vídeo abaixo.

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