Crônica - O Louco


"- Você é louco?"

"- Sim, eu sou. Mas o que isso tinha a ver com a conversa mesmo?"

E ambos sorriam. Ela ainda não estava acostumada com tantas espontaneidades. Antes de conhecê-lo, seguia uma vida cronologicamente planejada. Trabalho, estudos, namoro, fazer a unha, contar calorias, malhar na academia, ver televisão, ler um livro por mês, um dia casar, ter filhos, se aposentar e curtir a velhice. Planejamento. Enfim, gostava de acreditar que tinha algum controle sobre seu destino. Mas ele era diferente. Tudo para ele parecia possível. Certa vez ela falou com ele:

"- Que vontade de comer uma porção de camarão na praia!"

"- Sábado, as 10h, eu passo na sua casa e te pego. Às 12h a gente está em Santos, come uma porção de camarão, dá uma volta pela cidade, toma um banho de mar no final da tarde, fotografamos o pôr-do-sol e a noitinha estamos de volta."

"- Você é louco?"

Eles riram e naquele próximo sábado fizeram tudo isso. Aquela espontaneidade. Parecia que tudo para ele estava ao seu alcance porque ele não tinha medo de fazer as coisas. Por que os homens que ela conhecera antes não podiam ser assim? Bom, que era estranho era. Ela não estava acostumada e talvez tivesse um pouco de medo. Naquela semana, bateu uma vontade de ligar pra ele, furtivamente, e torcer para que ele pudesse atender. Depois de três toques, o coração estava acelerado, até que:

"- Alô?"

"- Oi, sou eu! Está ocupado? Se estiver, eu ligo outra hora!"

"- Não, não. Pode falar."

"- Você está com uma voz cansada, ofegante. Está tudo bem?"

"- Ah, é? Estou um pouco cansado mesmo. Estou aqui no parque correndo. Me deu uma vontade de tomar sol e correr hoje. Mas pode falar, sou todo ouvidos."

"- Você é louco? São 9h40 da manhã! Não era para você estar no serviço?"

"- Era. Mas pedi demissão. Hoje de manhã, quando acordei, me veio uma tristeza: 'Não conheço a Europa.' Tipo, já fui uma vez lá, fiquei duas semanas, mas conhecer, conhecer, não conheço. Aí fui lá no meu trabalho, falei com meu chefe e pedi demissão. Ele não entendeu nada, mas preciso conhecer a Europa. Ter histórias para contar para os meus filhos e netos."

"- Você é louco, só pode."

"- Quer vir junto?"

"- Imagina. Não sou tão louca assim. Depois a gente conversa?"

"- Sempre."

E conversaram. Ela não entendia o porquê, mas como ele sempre foi muito mais espontâneo dos dois, ela não questionava e nem apoiava. Torcia para ser um impulso que logo mais passaria. Mas não passou. Em duas semanas ele estava embarcando para a Europa e ela foi junto ao aeroporto, duvidando com seus próprios sentidos que aquilo estava acontecendo. 

"- Se cuida, tá?"

"- Você só pode estar louco! Porque está fazendo isso comigo?"

"- Vem junto!"

"- Você é louco? Não posso."

Ele sorriu. Ela chorou. Ele partiu. Ela ficou. Quando ele passou pelo portão de embarque, e lhe acenou uma última vez, balbuciou "Vem", ela ainda não acreditava. Achava que era alguma piada de mau gosto, até perceber que não existia piada alguma. Ele realmente estava de partida. Destino? Irlanda. Ela então voltou para a sua casa, para a sua rotina. Silenciosamente o xingava por ter feito aquilo com ela. Quem agora daria suas doses de loucura para a sua vida cronologicamente estável?

Nas  próximas semanas as fotos nas redes sociais foram aparecendo, com os novos colegas que ele fazia, as comidas que experimentava, os relatos de frio e chuva e outras aventuras. Não poderia falar mais todos os dias com ele porque ela inventava algumas desculpas: fuso horário, custo das chamadas, vai que ele arranjou outra namorada. No fundo ela queria entender como ele poderia largar um emprego estável com um bom salário para fazer isso. 

"- Louco. Só pode."

Com o tempo, ela foi voltando à sua realidade. Trabalho, estudos, um novo namoro, fazer a unha, contar calorias, malhar na academia, ver televisão, ler um livro por mês, um dia casar, ter filhos, se aposentar e curtir a velhice. Mas tudo isso já não tinha mais o mesmo sabor de antes dele.

"- Aquele louco! Estragou a minha vida! Porque ele foi fazer isso comigo?"

Ela sabia a resposta. De um jeito estranho, ela sabia. Sabia que, no fundo, ela tinha a opção de aceitar, ou não, enlouquecer. Não precisava ser muito, mas enlouquecer aquele pouquinho necessário de fazer a vida parar e então perceber que tudo faz sentido. E foi então que a vida dela parou e fez sentido. Naquela mesma semana terminou o namoro, pediu demissão e estava de embarque também para a Europa. No aeroporto ligou para ele, o telefone tocou algumas vezes até que ele atendeu:

"- Alô?"

"- Oi, sou eu! Tudo bem?"

"- Sim! E você? Está tudo bem? Quando vem pra cá comigo?"

"- Hoje! Embarco daqui a pouco, agora de manhãzinha!"

"- Legal! Tenho 12 horas para fazer aquele jantarzinho, a gente pode assistir um filminho, tirar várias fotos aqui em Dublin, fazer cafuné na sua cabeça no banco da praça e massagem nos seus pés quando voltarmos pra minha casa. Aí no outro final de semana a gente pode ir pra Barcelona ou Paris. Quero viajar bastante com você pra matar minha saudade. O que prefere no jantar? Carne ou Peixe?"

"- Você é louco!"

"- Sim, eu sou. Mas o que isso tinha a ver com a conversa mesmo?"

3 Comentários:

Realmente muito bom Dinão! Das várias interpretações, uma é factual: às vezes as pessoas vivem exclusivamente do cumprimento de deveres, sem absorver a essência da vida. Sem dúvida essa chega a nós com a espontaneidade.
Todos possuem algum grau de espontaneidade, que de alguma maneira está enclausurada dentro de nós mesmos, esperando o momento certo para ser libertada. Mas se não concedemos esse momento, estamos fadados a viver a monotonia das artificialidades criadas pelo próprio Homem.

Maria Fernanda disse...

Muito bom, Dino!! Isso me faz pensar que às vezes deixamos de viver coisas boas por medo da "espontaneidade", medo de sair da rotina, de dar algo errado...
Ser louco é bom, é ter novas sensações, viver novas oportunidades, é aventura, é encarar o novo, o diferente...
Quem sabe um dia eu tenho coragem de enlouquecer! =)

Carmem Peres disse...

Muito bom! Nos faz pensar se teríamos a mesma coragem...Ou se, afinal, somos também loucos...