Crônica - O Covarde



Ele se arrependia o tempo todo de ter perdido ela. Tinham saído algumas vezes juntos, cinema, restaurantes, viagens curtas. O beijo encaixava, o coração acelerava quando ouvia a voz dela, despertava algumas vezes no meio da noite pensando nela. Quando percebeu que estavam ficando mais sério, pulou fora. Não queria se apaixonar. Talvez fosse medo de se machucar. Como se fosse possível escolher nossas paixões. Então resolveu ser covarde: não atendia ligações, não respondia torpedos, excluiu ela como amiga do Facebook, apagou as fotos dos dois em seu notebook. Até que ela cansou de correr atrás e aprendeu seguir adiante sem ele. E ele passou a se arrepender de não ter mergulhado de cabeça por ela.

Certo dia, andando pelas ruas do centro da cidade, final da tarde, horário de rush e de happy hour, enquanto via as revistas em uma banca, notou uma leve semelhança da garota que ele não mergulhou de cabeça com uma das modelos da capa de uma revista feminina. Lembrou dos bons momentos, de como deixou ela escapar da vida dele e pensou:

"- Se ela aparecer de novo, eu não perco ela."

Ao sair da banca e voltar a caminhar na praça, ele vira o rosto para a direita e, como se surgisse um elo telepático, lá estava ela, mexendo com seu smartphone distraidamente. Seu coração acelerou, sua boca secou. Lá estava ela, linda como sempre. Ele a olhou fixamente por alguns segundos e começou a se dirigir a ela, mas antes de dar o segundo  passo em sua direção, ela levanta os olhos e nota a sua presença. Seu olhar, um misto de raiva e decepção o fuzila e ele, constrangido, cumprimenta-a:

"- Oi."

Meio sem graça, ela responde:

"- Oi."

"- Como você está? Tudo bem?"

"- Sim, estou bem."


Depois de um breve silêncio:

"- Não sei porque você toparia isso, mas gostaria de sair um dia para tomar um café comigo qualquer hora dessas?"

Ela começa a esboçar um não com a cabeça e ele continua:

"- Meia horinha. Sei que fui um moleque com você. Pode gastar todo esse tempo me xingando, porque eu sei que mereço."

"- Eu falo seis idiomas. Esse tempo não dá nem para o começo."

Ela sorriu, como se tivesse dado um cruzado de direita na boca dele. Ele sorriu, meio sem graça e respondeu:


"- Te ligo pra gente marcar. Ah, e a propósito, você está linda, muito linda. Achei que fosse meio tarde, já que estamos em julho, para usar vestidos."


"- Nunca é tarde demais. Nunca é tarde demais."


E ela virou e foi embora pela calçada no sentido oposto. Enquanto ele observava ela caminhando até desaparecer ao virar a esquina, ele repetia consigo mesmo:


"- Nunca é tarde demais."

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