Crônica - A mulher invisível


Durante longos anos, Tony namorou Helena, quando certo dia ela pediu um tempo. Ela estava em dúvida se era com ele que queria casar-se e precisava ter aventuras pueris para decidir. Ele não se conformava aonde tinha errado no namoro. Sempre fora atencioso, prestativo e fazia das tripas coração para não magoá-la. Mesmo assim, Helena pediu um tempo, que ele suspeitava que seria para sempre. O que explicaria para os tios, avós, primos, sobre o fim do relacionamento? Tony não tinha nenhuma desculpa satisfatória.

Ao longo das semanas que se passaram, Tony passou a frequentar um botequim onde afogava as mágoas de ter sido largado por Helena com algumas doses de aguardente. A barba crescia, a aparência ficava desleixada dia após dia, até que em seu serviço apareceu Andreia para fazer uma reviravolta:

"- Ei! Eu não te conheci assim! Você precisa se animar! Sábado tem um pagode lá na Central e eu vou junto com o pessoal do atendimento. Vamos também?"

"- Não sei."

Andreia se debruçou na escrivaninha de Tony, pegou uma caneta e um papel e anotou seu telefone celular.

"- Larga de bobeira, Tony! No domingo você descansa o dia todo. Tó, pega o meu telefone, me liga, que sábado eu quero ver você lá, pra gente dançar."

"- Tá. Vou pensar."

"- Me liga!"

E Tony guardou o telefone. No sábado ligou para Andreia, combinaram de se encontrar. Fez a barba, foi com a melhor roupa de sair, e se encontraram para dançar. Conversaram  bastante, o humor melhorou, até se divertiu o quanto pode. Voltou a ter algum brilho nos olhos depois de Helena. No final da noite, foram embora juntos e Tony ao deixar Andreia em casa disse:

"- Foi divertido, Andreia."

"- Vamos repetir a dose, hein?"

"- Pode deixar."

"- Vem cá, lindo!"

E se beijaram. Primeiro beijo. Ele sentia como se estivesse traindo Helena, mas e daí? Ela queria ter aventuras pueris? Então que tivesse! Então Tony entrou de vez no beijo.

"- Quer subir?"

"- Vamos mais devagar. Vamos nos conhecendo."

"- Tudo bem."

Tony foi para casa com a sensação de que poderia renascer das cinzas, como a Fênix da mitologia grega. Com o passar do tempo, ele foi melhorando de humor, voltou a ser o sujeito radiante e sorridente. Saia sempre com Andreia, se divertia com as histórias dela, mas seu coração estava trancado, ainda de luto por Helena. Mas, a sua maneira, ia se divertindo. Seus pais e outros parentes mais próximos percebiam a mudança no semblante de Tony.

"- Tá com namorada nova, filho?"

"- Que nada, mãe. Tô só me descobrindo."

"- Sei."

Em dois meses Tony já era outra pessoa. Totalmente diferente do sujeito cabisbaixo. 'Como ele conseguiu se recuperar tão rápido de fim do relacionamento', era o que todos perguntavam. Tony agradecia todos os dias por Andreia ter entrado na vida dele, mas não compartilhava ela com ninguém. Era algo que ele guardava escondido. Nunca a levou para a casa de sua mãe, ou apresentou para nenhum parente ou amigo. Era do serviço para casa e vice-versa.

Certo domingo, enquanto os dois passeavam de carro, Helena ligou no celular de Tony. Andreia sabia quem era e disse que ele poderia atender.

"- Oi! Helena! Que surpresa! Tudo bem? (...) Eu estou bem. E você? (...) Não, posso falar sim. (...) Ah, eu estou voltando pra casa. Estava no médico. (...) Não, eu estou sozinho, pode falar. (...) Pode ser, pode aparecer lá em vinte minutos (...) Tá bom. Tô te esperando. (...) Beijos (...)"

Depois que Tony desligou o celular e esboçou um sorriso de alegria, Andreia percebeu naquele momento que Tony não falaria para ninguém que eles estavam juntos.

"- Tony, pode me deixar ali naquele ponto de ônibus."

"- Eu te ligo a noite, pode ser?"

"- Não precisa."

"- Mas eu ligo mesmo assim."

Tony se encontrou com Helena, conversaram, falaram sobre o tempo que estavam separados, se poderiam reatar em breve. Em nenhum momento Tony falou para Helena que estava com Andreia. A noite, quando estava sozinho, ele ligou para Andreia, o telefone tocou várias vezes e ela não atendeu. Ligou de novo. Nada de atender. Mais uma vez. Nada. Deixou recado na caixa postal na quinta tentativa. Depois de uma meia hora,voltou a ligar e nada. Pensou alto:

"- Será que ela ficou brava? A gente não tem nada sério!"

O domingo terminou e Andreia não retornou as ligações. Na segunda-feira procurou por ela no trabalho. Ela não tinha ido. Faltou. Ligou algumas vezes durante o expediente e ela não atendeu. Na terça-feira, ela também não estava lá pela manhã. Lá pelas 11h00 ela apareceu rapidinho e foi direto para a sala de Recursos Humanos. Tony tentou ver o que estava acontecendo e se falaria com ela. 11h23, Andreia saiu da sala de Recursos Humanos mais rápida que um foguete e nem foi até a mesa dele. Ligou de novo no almoço e ela não atendeu. A noite, ligou mais algumas vezes e nada. Andreia sumiu de sua vida. Ele tentou algumas outras vezes ligar nos próximos dias, mas o telefone nunca atendia. No outro domingo, quando foi almoçar na casa de sua mãe, pensou alto, enquanto brincava com a comida:

"- Sinto falta da Andreia."

E sua mãe perguntou:

"- Quem é Andreia?"

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