Crônica - Idade e Censura


Esses dias reparei algo comum aqui na cidade grande. As pessoas ficam sem graça ao passar perto. Mas era interessante de se observar de longe. Eram dois adolescentes na rua se beijando. Ela de uniforme, mochila, cabelos compridos, mão segurando cadernos, outra mão segurando os cabelos dele. Ele encostado no carro do pai, bermuda, tênis e camiseta, e mãos deslizando pelas costas dela, sem rumo e sem vontade de parar onde deveriam. Acho que me lembro do que se sente nessa hora. A gente fica momentaneamente surdo, o estômago vira um aquário onde os peixes parecem nadar depois de tomar uma dose a mais de cafeína. E o beijo não termina nunca. A língua fica ali, rodando por horas dentro do mesmo espaço. Aqueles dois corpos, ainda firmes, estão tão juntos que preenchem tudo com o vácuo. Falta jeito, faltam palavras e sobra agonia para o resto da tarde, depois que ele deixá-la em casa. E o frio que percorre o corpo de cima até embaixo? Depois de abandonar os uniformes, muitos de nós nunca mais voltaram a senti-lo. E poucas vezes colocamos tanta paixão para ser exibida no meio da rua a vista de todo mundo.

A adolescência é uma fase muito legal. Mas a medida que envelhecemos, parece que a idade se torna uma forma de censura. Talvez tenha servido o exército na época da ditadura e aprendido a condenar aqueles que extrapolam. E, mesmo a muito contragosto, acabo sendo forçado a aceitar que excessos de exibição amorosa para quem já trabalha, paga contas e faz check-up anual deveriam ser mesmo proibidos e trancados dentro de celas fechadas e úmidas. Temos o que merecemos, isso é fato. 


Mas que dá vontade, isso dá. De esquecer as nossas responsabilidades de adultos, voltar a ser adolescentes e esquecer toda essa baboseira de que não podemos fazer isso ou aquilo depois de uma certa idade. Quem sabe um dia, a gente deixe de se autocensurar, resolva desistir desta vida adulta maluca e topamos seguir em frente sem nos preocuparmos com o que os outros vão achar. Afinal, deixar de fazer algo, por que eu não temos mais idade? Ah, tá bom! Conte outra.

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