Crônica - A musa inspiradora


Alexandre e Giane formavam um casal interessante e curioso. Em qualquer lugar que os dois estavam, era só Giane falar alguma coisa interessante para Alexandre, que ele largava tudo e anotava no notebook, ou na primeira folha de papel que encontrava ou no celular.

"- Alê, eu acho que não tem nada a ver a mulher ser vulgar por usar um vestido curto. Só se a mulher tiver cabeça oca pra achar que isso é sua única arma de sedução, né?"

"- Concordo Gi! E assino embaixo!"

Alexandre pegou então um pedaço de papel e uma caneta, anotou o que ela falou e guardou no bolso da calça. Ela fingiu que não viu. Outro dia, quando estavam no sofá  da  sala da casa do Alexandre vendo uma matéria sobre namoros nas redes sociais, Giane comentou:

"- Você já viu Facebook, Alê? É muita princesa correndo atrás de sapo e muito príncipe correndo atrás de bruxa..."

"- Hahaha! Tem razão! Peraí..."

Ele se levantou para pegar o celular.

"- Aonde você vai?"

"- Anotar o que você falou! Muito interessante..."

"- Só você, Alê..."

Ela começou a achar divertido esse jeito dele de transcrever o que ela pensava. Começou no namoro. Um dia ela encontrou alguns contos e textos que ele escreveu.

"- Alê! Você escreve superbem! De onde você tira essas ideias?"

"- De você, Gi... De você..."

"- Tonto... Fala logo!"

"- É verdade..."

E a agarrou em um beijo apaixonado.

"- Minha musa inspiradora!"

"- Vou mostrar que sua musa anda bem inspirada... Vem cá!"

Eram dois apaixonados. Casaram e foram morar em um condomínio novo com apartamentos diminutos perto do centro da cidade. Trabalhavam de dia e se encontravam a noite. Eles partilhavam como tinham sido seus dias e de vez em quando, lá estava Alexandre anotando algo que ela dizia. Bastava ela pensar um pouco mais alto, fazer uma pergunta ou divagar algo interessante. Alexandre corria para anotar. 

Nessa brincadeira, ele resolveu arriscar um pouco mais e lançou um pequeno romance, que foi um sucesso de vendas. Arriscou um segundo, que também vendeu muito. Largou o emprego e viveu de escrever romances. Trocaram de carro, de apartamento e prosperaram por alguns anos. 

Na véspera de lançamento do quinto romance de Alexandre, Giane sentiu uma dor de cabeça que não passava em hipótese nenhuma. Como a vida é uma caixa de surpresas, Giane foi fazer um exame e o médico disse que o estado de saúde dela era delicado. Fez algumas sessões de radioterapia mas eram só um paliativo, estava adiando o inevitável. Um dia ela deu sua última entrada no hospital e não voltou mais.

* * * * * * * * * *

Alexandre passou a viver enfurnado em sua casa, vivendo só, escrevendo um romance atrás do outro. Um dia fui visitá-lo para saber como ele estava, já que há muito tempo não dava mais notícias para nossa mãe e nem para nossa família. Falamos sobre amenidades e ele me contou toda a história de como começou a escrever.

"- Puxa, meu irmão, que história bonita. E você e a Giane formavam um casal sensacional!"

"- Pois é..."

O silêncio ali ficou constrangedor. Minha curiosidade era tanta que fiz um última pergunta a respeito de seus romances:

"- Mas me diga uma coisa Alê, de onde você tira novas inspirações para os livros que escreveu depois que ela partiu?"

Ele caminhou até a varanda de seu apartamento e respirou fundo. Achei que tinha dado mancada. Virou-se pra mim e perguntou:

"- Você está aberto a novas possibilidades, Ricardo?"

"- Claro!"

Com um sorriso no rosto e um olhar marejado ele retornou da varanda, repousou suas mãos sobre meus ombros e confessou:

"- Ricardo... Todas as noites eu sonho com a Giane. A gente fala sobre amenidades e de vez em quando ela fala algo que me surpreende, bem a cara dela. Ela continua sendo minha inspiração em verso ou em prosa... E assim tem sido... Todas as noites..."

Meu irmão me abraçou e ambos choramos.

1 Comentários:

Laís Ferraz disse...

Huehuehue gostei da estória!