Crônica – Domingo Azul


Era um domingo azul. Estavam na plataforma de embarque da estação ferroviária quando o trem para São Paulo apareceu apitando lá no horizonte. Tânia e Alex sabiam que tinha só mais alguns minutinhos.

"- Você tem certeza?"

"- Sim. E você vai ficar bem?"

"- Vou tentar."

"- Não fala assim..."

"- Tá, vou ficar sim."

Se abraçaram em silêncio. Ela queria o mundo. Ele queria raízes. Ela queria o céu. Ele queria o chão. Ela vivia em sonhos. E ele achava que vivia a realidade. Ela era otimista. Ele era realista. O trem estava parado na plataforma de embarque e em instantes partiria.

"- Preciso ir."

"- Tudo bem. Qualquer problema me telefona, me escreve, me avisa."

"- Claro."

"- Em outro domingo azul eu volto. Prometo."

"- Que bom, vou esperar."

Ela entrou no trem com sua mochila e se sentou na janela. Quando o trem partiu, ela observou ele ficar cada vez mais distante, até ficar não muito maior do que um pequeno ponto distante e desaparecer. Sentiu um frio na barriga. Percebeu que já não poderia voltar atrás. Era orfã de pai desde os seis anos e perdera a mãe há seis meses. Não tinha mais nenhum parente próximo na cidade. Só tinha Alex, seu namorado desde o último verão. Embora se dessem superbem, não eram nada parecidos. Ela não queria viver uma vida de rotinas, linearmente planejada, onde casamento e filhos eram certezas absolutas. Queria mais. Queria dar um propósito para a sua vida. Por isso vendeu a casa que morou desde que nasceu, comprou uma mochila, colocou poucas coisas importantes dentro dela e resolveu partir pelo mundo. E agora lá estava ela, dentro do trem, com destino à cidade grande.

Primeiro ela ficou um tempo em São Paulo. Arranjou um emprego de recepcionista em um restaurante ao lado de um museu. Depois de alguns meses enjoou da cidade e partiu para Belo Horizonte e lá ingressou em uma faculdade, fez amigos, trabalhou até se formar. Depois da formatura, já com o diploma na mão, foi para o Rio de Janeiro, e lá ficou por dois anos. Depois de um pequeno contratempo na cidade maravilhosa, fez seu primeiro passaporte e e resolveu que era hora de embarcar para o exterior. Embarcou a trabalho em um cruzeiro até desembarcar na França, primeiro turista, depois como estudante de pós-graduação.  

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Ao longo dos anos conheceu vários países do Velho Mundo. Também morou nos Estados Unidos, no Canadá, na Nova Zelândia e assim foi vivendo, colecionando carimbos até encher o primeiro passaporte, depois encheu o segundo, o terceiro, o quarto e começou um quinto. Seis meses em um lugar, dois anos em outro, aluns dias ali, outras semanas lá. Escrevia sempre para Alex narrando o que conhecera, o que estava acontecendo de legal, falando das comidas, das gafes que cometera, das maravilhas e das tristezas.

Com o tempo, sua mochila foi ficando cada vez mais pesada. Ali ela colocava só o que era realmente importante. Fotos, cartas de Alex, passaportes, alguns cartões postais e algumas moedas de onde ela tinha passado. A vida tinha sido muito generosa e ela sabia que tinha ido muito além do que qualquer conterrâneo jamais sonhara.

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Após um longo tempo, em um outro domingo de sol, com céu bem azul, Tânia apareceu na estação de desembarque de sua cidade natal. Estava grisalha, rosto marcado por centenas de povos, olhos brilhantes e a alma em paz. Alex a esperava, de mãos dadas com o neto caçula e sua esposa. Sorriram um para o outro e em silêncio se abraçaram. Tinham muitas coisas para colocar em dia.

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