Crônica – Pré-Vestibulando



 Eu, você, meus pais, meus colegas, meus amigos. Todos nós já fomos estudantes. E estudante é uma coisa engraçada. Não importa a idade, é quase sempre a mesma coisa. Estudar para as provas, para passar de ano. Evitar a recuperação final e as chineladas da mãe. Sofrer bullying, passar cola, levar um fora da garota mais bonita da turma, disfarçar com maquiagem as espinhas que teimam em nascer, manchar com manteiga na hora do café da manhã o trabalho que você tem que entregar valendo nota, chegar na escola e descobrir que tem prova de Matemática e você não estudou. Quem nunca passou por isso? Mas tem um um tipo de estudante que é diferente dos demais: os pré-vestibulandos. Para eles não há meio termo. Passar de ano, recuperação, chineladas, bullying, espinhas. Tudo isso não tem mais tanta importância. Agora é uma guerra, onde o pré-vestibulando tem que superar  cinco, dez, vinte, cem concorrentes para aquela vaga na faculdade de seus sonhos. São mesmo diferentes. E são divididos em dois grupos: os interessados e os desinteressados. 

Os interessados sentam nas fileiras da frente. Tem material organizado. Canetas de várias cores, inclusive várias cores de marca-textos. Fichário com muitas folhas. Post-its de várias tamanhos e formatos. Apostilas e anotações em dia. Olhares atentos. Se tem dúvidas vem no plantão. Estuda. Estuda. Estuda. Terrorismo com o concorrente. Desespero psicológico (mas ninguém sabe e se sabe é ameaçado). Nervosismo para a prova. Respira fundo. Abre a prova. Respira fundo de novo.

“– Ai meu Deus, marco essa ou aquela?”

“– Qual é mesmo aquela fórmula? πR² ou (πR²)/2?”

“– Caramba, revisei isso ontem, não tem como errar!”

"- E agora? Ácido Sulfúrico ou Nítrico que é o mais forte?"

"- Quem foi o Arquiduque Franz Ferdinand? Eu lembro que o professor falou!"

 E a Redação?

"– Exceção é com 'ésse' ou com 'ce-cedilha'?”

“- Escolho qual tema?”

"- Meu Deus! Deveria ter feito o rascunho antes!"

"- Será que descontam rasuras?"

Respira aliviado. Preenche o gabarito. Sentimento: Missão cumprida. Sai da prova como um trapo e vai para casa. Direto para o computador. Abre a página do gabarito. Ainda não foi divulgado. F5. F5 de novo. F5 de novo e de novo. Saem as primeiras coberturas do vestibular e sempre alguém fala que a prova foi fácil. Volta para a página do gabarito. F5. F5!!! Saiu!! Confere o gabarito. PULOS E SORRISOS. Missão cumprida. Agora é esperar a ser chamado.

Agora a classe dos desinteressados. São uma espécie de parasitas dos cursinhos.

“- Me empresta sua borracha?”

“- Tem grafite 0.5? E 0.7?”

“- Me empresta uma folha?"

"- Tem caneta azul?"

"- Amanha eu te pago!”

"- Vai no churras que eu tô organizando?"

Fundão da sala. Ficam em bandos. Um por todos e todos pela bagunça! É uma classe respeitadora. Não perturba ninguém quando está dormindo. Não olha de cara feia. Não faz terrorismo. Faz a turma rir e manda os melhores bilhetinhos para o professor ler 'pra' turma. Mochila no chão. Suja. Mesa vazia. Cabeça abaixada. Fone de ouvido plugado no celular e ouvindo o novo pancadão. Zzz. Triiiiiiiiiiiim. Acabou a aula. 

“- Uhuuuu!”

Casa. Almoço. Zzz. Zzz. Zzz. Liga a TV. Zzz. No dia da prova já 'chega chegando'. Cumprimenta a galera toda no local da prova. Entra na sala. Se estica todo e relaxa. Olha para o lado e puxa conversa. Entra um de seus colegas: 

“- Aêeeee Paulão!”

Dão um soco nas costas um do outro se deseja boa prova. (Nesse instante os CDFs já os fulminaram com o olhar). Silêncio. Abre a prova. Sorri e faz:

“- Mamãe mandou eu escolher essa daqui!”

Próxima questão: fecha o olho e marca uma letra. No final preenche o gabarito.

"- Ih, marquei muitas letras C! Vou mudar algumas!"

Redação. Com muito esforço consegue escrever o mínino de linhas permitido. Gabarito. Terminou. Entrega a prova e sorri para o fiscal. A galera toda lá fora esperando.

"– Aêeee Paulão! Como foi?" 

"– Não sei. Foi."

“- Vamu vê no que dá, né?”

Sai a galera toda. Bar. Depois: Festa da Ressaca. O Gabarito saiu já tem dois dias.

“– E aêee Paulão, tirou quanto?” 

“– Ih, cara, nem vi ainda.”

Chega em casa. A mãe avisa:

"- Filho... você não passou! Também Medicina é muito concorrido, né?"

Suspira.

"- Ano que vem, tento de novo, mãe! Vou ser o primeiro médico da família! O almoço tá pronto?"

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