O professor favorito de Bill Gates é um empreendedor sem sede de dinheiro

Salman Khan produz palestras on-line que são assistidas pelos filhos do fundador da Microsoft
Durante o Festival de Ideias de Aspen, nos Estados Unidos, diante de duas mil pessoas, Gates deu a Salman Khan, 33 anos, o apoio que qualquer empresário adoraria receber. Depois de refletir sobre o que ele chamou de "inacreditável má alocação" de recursos que deveriam ir para a educação, Gates elogiou as "incríveis" aulas de dez a 15 minutos da ONG Khan Academy (khanacademy.org), um vasto tesouro digital de minipalestras grátis, que "tenho usado com meus filhos". Rory, de 11 anos, continuou Gates, é fã dos vídeos de álgebra e biologia da escola virtual de "Sal". Com admiração e surpresa, a segunda pessoa mais rica do mundo comentou ainda que o professor "era um corretor de investimentos que ganhava muito dinheiro". Hoje, disse Gates, "eu diria que avançamos cerca de 160 pontos de QI da categoria fundo de investimentos para a categoria 'ensinar muitas pessoas de maneira alavancada'. Foi um bom dia aquele em que sua mulher concordou que ele deixasse o emprego". Khan nem sequer estava lá - ele soube do elogio de Gates por meio de um vídeo no YouTube. "Foi realmente bacana", comentou o rapaz, um articulado mestre em administração de empresas por Harvard e ex-administrador de fundo de investimentos.

Em uma casa de campo simples, junto à estrada principal do Vale do Silício, em um closet reformado, cheio de prateleiras e equipamentos de vídeo que valem algumas centenas de dólares, sobre o tapetinho vermelho de seu bebê, fica o epicentro do terremoto educacional que cativou Gates e outros. É ali que Khan produz aulas on-line de matemática, ciência e uma série de outros assuntos que o transformaram em uma sensação na web.

A Khan Academy, da qual Khan é o único professor, aparece no YouTube e em outros lugares e é sem dúvida o site educacional mais popular da internet. A lista de Khan de 1.630 aulas ou "tutoriais" (na última contagem) hoje é vista em média 70 mil vezes por dia - quase o dobro do número de alunos de Harvard e Stanford somados. Desde que ele começou suas aulas, no final de 2006, a academia recebeu 18 milhões de visitas únicas em todo o mundo, incluindo os filhos de Gates. A maioria dos visitantes era dos Estados Unidos, seguidos de Canadá, Inglaterra, Austrália e Índia.

Khan diz atingir cerca de 200 mil estudantes. "Não existe motivo para que não sejam 20 milhões." Suas aulas simples, em tom de conversa - o rosto de Khan nunca aparece e os espectadores só veem os esquemas e diagramas simples, passo a passo, em um quadro-negro eletrônico -, são mais que um exemplo de mídia viral distribuída para o universo por baixo custo. A Academia Khan encerra a promessa de uma escola virtual: uma transformação educacional que despreza as salas de aula, os campus e a infraestrutura administrativa, e até os professores de grife.

O aprendizado a distância e os cursos por correspondência existem desde a invenção dos correios. E há muitas escolas particulares e comerciais; a Universidade de Phoenix, no Arizona, tem meio milhão de alunos matriculados, a maioria deles on-line. Outras operações particulares, como a Teaching Co., são especializadas em reunir "grandes cursos" de professores conhecidos nacionalmente: o de "Teoria dos jogos na vida, nos negócios e mais", de um astro acadêmico, custa US$ 254,95 em DVD.

O que é notável na Academia Khan, além de sua publicidade boca a boca e de seu rápido crescimento, é que ela é grátis e valoriza a concisão. Lembra-se de seu professor de macroeconomia que resmungava durante 50 minutos em um grande auditório, capaz de entediar os mortos? Esse não é Khan. Ele raramente faz gracinhas - se você quiser diversão, verifique Darth Vader tentando ensinar geometria euclidiana no YouTube ("O teorema de Pitágoras é o seu destino!"). Mas, em menos de 15 minutos, Khan é capaz de chegar à essência do assunto que ele já vasculhou.

Os críticos on-line questionam se é apenas um amador que está transformando o aprendizado em McNuggets pedagógicos. Mas enquanto você obviamente não aprende cálculo em uma aula - o assunto é dividido em 191 partes, que não incluem outras 32 de pré-cálculo -, os componentes de Khan parecem atingir o ponto perfeito em extensão e conteúdo. Ele cobre um leque surpreendente. Lá estão os temas básicos da matemática - aritmética, geometria, álgebra, trigonometria, cálculo e estatística - e as ofertas científicas de praxe, como biologia, química e física. Mas Khan também dá aulas de Economia de uma Fábrica de Bolinhos, Guerras Napoleônicas e o Instigador Cerebral da Abdução Alienígena.

Khan encontra vários céticos sobre o trabalho que vem fazendo no setor de educação. Eles não duvidam de que ele seja bem intencionado e esteja ajudando estudantes, mas questionam o impacto mais amplo de qualquer curso que não teste o desempenho ou permita a discussão cara a cara entre aluno e professor. "É um sólido recurso suplementar, especialmente para alunos motivados", diz Jeffrey Leeds, presidente da Leeds Equity Partners, a maior empresa americana de capital privado especializada em educação com fins comerciais. "Mas não é uma academia - a iniciativa dele está mais para biblioteca", observa. Mas Khan não pretende nada menos que "dezenas de milhares" de tutoriais oferecendo o que chama de "a primeira escola virtual de classe internacional gratuita, onde qualquer um pode aprender qualquer coisa."

Como muitas epifanias empresariais, a de Khan ocorreu por acaso. Nascido e criado em Nova Orleans - filho de imigrantes da Índia e do atual Bangladesh -, Khan foi durante muito tempo um astro acadêmico. Além do mestrado em administração por Harvard, ele tem três diplomas do MIT: um de matemática e um diploma e mestrado em engenharia elétrica e ciência da computação. Também foi presidente de sua classe no MIT e professor voluntário na Brookline, ali perto, para crianças talentosas, assim como desenvolveu um software para ensinar crianças com déficit de atenção. O que não sabe, ele pega em leituras e reflexões intermináveis: seu dom, como o de muitos professores, é a capacidade de resumir o que é complexo. "Parte da beleza do que ele faz é sua consistência", diz Gates. Sobre a capacidade de Khan de ensinar, Gates, que diz passar um tempo considerável ajudando seus três filhos a aprender o básico da matemática e da ciência, disse à Fortune: "Eu o invejo um pouco".

No verão de 2004, quando ainda morava em Boston, Khan soube que sua prima Nadia, aluna da sétima série em Nova Orleans, tinha dificuldades no curso de matemática para converter quilos. Ele concordou em ensiná-la remotamente. Usando o software Yahoo Doodle como um bloco de notas compartilhado, além de um telefone, Nadia melhorou tanto que Khan começou a trabalhar com seus irmãos, Ali e Arman. A notícia chegou a outros parentes e amigos. Khan escreveu geradores de problemas em linguagem JavaScript para manter um suprimento de exercícios práticos. Mas, entre seus treinos de futebol, o emprego e diversos fusos horários, ficou impossível coordenar tudo. "Comecei a gravar vídeos no YouTube para eles assistirem quando pudessem", lembra Khan. Outros usuários se sintonizaram e estava criado o projeto da Academia Khan.

Khan continuava trabalhando para o pequeno fundo de investimentos no qual havia entrado depois de Harvard, o Wohl Capital Management. Ele disse que tirou "menos de US$ 1 milhão" antes que o fundo sediado no Vale do Silício naufragasse, e por um breve período, em meados de 2008, criou seu próprio fundo, que não decolou realmente por causa da crise financeira ("Eu o chamei de Khan Capital", ele diz, "mas nunca foi muito além do Capital do Khan", brinca ele). Ele usou seu pé-de-meia para comprar uma casa com sua mulher, Umamia, que é bolsista em reumatologia na faculdade de medicina de Stanford, e também parte como reserva quando desistiu da carreira nos investimentos. Em um dia comum, ele grava algumas aulas, responde a posts de seus alunos, telefona para especialistas quando empaca na explicação de um conceito e examina indagações de potenciais investidores curiosos.

Ele afirma que não se interessa por monetarizar sua operação, cobrando matrículas ou vendendo anúncios. "Já tenho uma linda esposa, um filho hilário, duas motos e uma casa decente", declara em seu site. Mas isso não deteve as doações, sendo a mais notável a de John Doerr, o capitalista de risco do Vale do Silício, e de sua mulher, Ann. Há pouco tempo chegou pelo PayPal uma doação de US$ 10 mil para o site (um presente típico é de US$ 100). Khan mandou um e-mail para a doadora. Seu nome era Ann Doerr. Ele conhecia um John Doerr, mas pensou que fosse um nome comum. Mandou um e-mail de agradecimento e ela sugeriu um almoço. Quando se conheceram, Ann Doerr disse a Khan que não podia acreditar que a maior doação fora a dela. "Adoramos o que você está fazendo." Quando ele chegou em casa, encontrou uma mensagem de Ann: "Você tem US$ 100 mil no correio". Khan está usando esse dinheiro para pagar um salário para si mesmo. Mais tarde ele conheceu John Doerr e, de lá para cá, conta com o casal para conhecer outras pessoas no meio filantrópico.

Em julho, a academia recebeu mais US$ 100 mil - de John McCall Mac- Bain, um empresário canadense que fez fortuna no setor editorial. "Se eu tivesse US$ 1 milhão", diz Khan, "financiaria o desenvolvimento de software de conjuntos de problemas automatizados e traduções dos vídeos". Bill Gates, cuja fundação gasta US$ 700 milhões por ano em educação nos Estados Unidos, pretende conversar com Khan em breve.

Fonte: Revista PEGN

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