Crônica – Dois Pontos



Quando eu era criança, quase todos os dias que eu voltava da escola e encontrava meu pai, eu contava para ele o que tinha aprendido. Certa vez falei pra ele:

"- Pai, hoje eu aprendi que a menor distância entre dois pontos é uma reta!"

"- Pode ser. Mas também tem outro caminho!"

"- Qual, pai?"

"- A menor distância pode ser também a mais divertida!"

Meu pai, que sempre andava em linha, eventualmente deixava de ser direto. Certa vez, ainda na minha infância, com não mais do que 7 anos, meu pai terminou de lavar seu Opalão Azul e falou pra minha mãe:

"- Preta, arruma as malas do guri que tô indo pra Recife!"

"- Fazer o que lá, homem de Deus?"

"- Passear!"

Mais que depressa minha mãe arrumou minha pequena mala de roupas e colocou-a no banco de trás do carro comigo. Ela então beijou meu pai, depois me deu um beijo na bochecha e voltou ao portão enquanto meu pai dava ignição no Opalão onde se despediu da gente:

"- Vão com Deus vocês dois!"

"- Pode deixar!"

"- Tchau mãe!"

Aquela viagem, que normalmente duraria três dias para chegar, nós levamos quinze. Qualquer estradinha que aparecia, restaurante com nome estranho, praia com nome engraçado, meu pai parava e lá a gente se divertia. Serpenteamos meio Brasil, fugindo de pedágios, vendo a nascente do Rio São Francisco, nadando em veredas, ajudando flagelados da seca, comendo coco verde na praia, vendo as paisagens com o vento batendo na minha cara e onde parávamos, meu pai ouvia as histórias do povo, fazia amigos, nos divertíamos e deixávamos saudades. 

Depois de quase um mês, voltamos para casa. Naquela época não tínhamos as facilidades modernas dos celulares e telefone fixo era coisa de rico, de acionista da Telesp, e os recados vinham de semana a semana por uma vizinha chata que odiava dar recados para toda a vizinhança. Minha mãe não sabia a hora que chegaríamos e ficou toda surpresa quando aparecemos no portão buzinando.

* * * * * * * * * *

Cresci e comecei a achar que era perda de tempo essas viagens, essas loucuras. Ele me chamava para me divertir com ele e eu estava sempre ocupado ou arranjava alguma ocupação para não ir. Comecei a achar que a menor distância entre dois pontos era só a reta. Até que um dia, meu pai morreu. Um mundaréu de gente, que não via há dez, quinze, vinte anos, apareceu em seu funeral. Contavam histórias, causos, aventuras, piadas que meu pai contava e lembrando de como eu era o pequeno companheiro de aventuras dele.

Desde então, nunca mais eu peguei a Régis para ir para Curitiba.

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