Crônica - Telepatia


Eles se conheceram por telepatia. Eram adolescentes, começo da puberdade. Ele voltava das aulas de violão do conservatório da cidade quando a viu pela primeira vez e ficou paralisado por sua beleza. Era final da tarde e ela passou a uns dez metros de distância dele, na praça atrás da igreja matriz. Ela não andava e sim flutuava. Seu vestido branco mal tocava sua pele. O ar a envolvia enquanto ela se movimentava. A seda flutuava sobre seu corpo como as asas de um anjo. Ele a observava encantado com uma beleza ao mesmo tempo tão singela e tão fascinante. Seu pensamento, tímido como ele, era um só, enquanto a admirava:

"- Que linda! Olha pra mim... olha pra mim... olha pra mim..."

Ela parou de repente sob a sombra de uma cerejeira em flor. Parecia que algo a incomodava. Começou a olhar ao redor, procurando por algo, sem saber o porquê. Olhava para um lado e para o outro, quando ela se virou em sua direção e olhou direto para seus olhos. Ele engoliu seco e tirando coragem de onde ele não imaginou que teria, continuou olhando para ela. Ela abriu um sorriso ao vê-lo. Seus olhos castanhos eram a coisa mais bonita que ele tinha visto até então. Ela tentou disfarçar e pegou algumas flores da cerejeira, colocou em seus cabelos dourados como o sol e seguiu adiante. Lá na frente, virou para trás para ver se ele ainda a olhava. Com a confirmação, continuou em frente até desaparecer virando a esquina, ao lado da igreja.

No dia seguinte, por volta do mesmo horário ele a esperou. Lá veio ela de novo, com a sua beleza que o hipnotizava. Ela chegou na praça e procurou por ele, que meio que escondido, agora pensava:

"- Aqui! Mais pra esquerda... mais pra esquerda..."

Ela virou a cabeça para a esquerda e o encontrou. Abriu aquele sorriso que ele tinha se apaixonado na tarde anterior, o fitou por alguns segundos, esperando talvez por alguma iniciativa dele, e continuou seu trajeto, olhando de canto de olho, enquanto seu rosto ficava rubro de uma timidez tão grande quanto a dele, até que desapareceu ao chegar na outra rua. 

Aquilo se repetiu por algumas tardes. Ele sempre depois da aula do conservatório ia para o mesmo ponto da praça e a esperava. Quando ela aparecia, a chamava com seus pensamentos e ela o encontrava com os olhos. Aqueles encontros diários, de não mais do que alguns minutos, passaram a ser motivo de grande expectativa para ele.

Até que um dia, os encontros visuais cessaram. Ela não voltou a aparecer. Ele a esperava todas as tardes. Ela não veio mais. Passaram dias. Semanas. E nada da garota que iluminava seus finais de tarde. Ele arrependia amargamente de ser tão tímido, de nunca ter ido adiante, de nem ao menos saber o nome dela, da menina dos olhos castanhos. 

O ano escolar foi se encerrando, suas aulas de violão ficavam cada dia mais desafiantes, e o rosto da menina começava a ser uma lembrança distante. Iria se apresentar no concerto de encerramento do ano, com o número final, a pedido de sua professora de música, e passou a ficar quase até o começo da noite na sala de música ensaiando com seu violão a sua apresentação solo. Ele poderia escolher a música que quisesse para a sua apresentação. Então escolheu tocar uma música antiga, que sua mãe sempre ouvia na vitrola de sua casa, Brown Eyed Girl de Van Morrison, para lembrar da menina que iluminou suas tardes e que alimentou sua primeira paixão.

No dia da apresentação, anfiteatro da escola lotado, plugou o cabo do violão na mesa de som, sentou em um banquinho. Um amigo que iria ajudá-lo com a percussão, sentou ao fundo quando começaram a tocar. A plateia batia palmas ao som dos acordes do violão. Então, ele começou a cantar. 

"Standin' in the sunlight laughin'
Hidin' behind a rainbow's wall
Slippin' and a slidin'
All along the waterfall
With you my brown eyed girl
You my brown eyed girl

Do you remember when
We used to sing
Sha la la la la la la la la la la ti da (just like that)
Sha la la la la la la la la la la ti da
La ti da"

No meio da canção, começou a lembrar da menina dos olhos castanhos, que o inspirou a cantar naquela apresentação. Alguma coisa começou a incomodá-lo. Olhou para um lado, para o outro, de repente, lá no alto, na última fileira de cadeiras do anfiteatro, próximo a porta principal, seus olhos pararam e encontraram os olhos castanhos que ele tinha se apaixonado há alguns meses. Mais linda do que nunca. Ela o tinha chamado por telepatia. Com um pensamento. Ele abriu um sorriso. Terminou de cantar. Foi aplaudido de pé. Ganhou cumprimentos da diretora da escola, dos seus pais, mas ele só se importava em não perder de vista sua paixão adolescente. Finalmente conseguiu chegar ao fundo do anfiteatro ao lado da menina dos olhos castanhos e balbuciou:

"- Oi! Tudo bem? Gostou da música?"

"- Adorei. Sobre o que fala essa música?"

"- Sobre você!"

"- Eu? Mas por quê?"

"- Porque desde que a vi pela primeira vez, jamais consegui te esquecer."

Ela corou.

"- Prazer, Gabriela."

"- Daniel."

"- Toca pra mim de novo essa música, Daniel?"

"- Claro. A hora que você quiser."

E foi assim que tudo começou. Por telepatia.

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